Convencido de que iria embarcar em mais uma jornada de conhecimento e auto-descoberta, entrei no Minipreço para comprar laranjas.
Recolhido o produto que me levou àquele santuário de meditação, deparo-me com uma gigantesca fila que em alguns minutos foi partida em duas, aquando da abertura de uma nova caixa.
Como se a espera não fosse suficiente, à minha frente estava uma vagarosa idosa, com a qual já me havia cruzado, cuja cabeça havia tido um encontro romântico com uma cisterna de laca.
O empregado que veio a assumir os comandos da nova linha de produção de bips era o mesmo que já havia travado conhecimento com tal senhora, encontro esse que havia presenciado. A conversa que tinha agora continuação prendia-se com o facto da senhora querer saber se a embalagem de "tranches de pescada" estaria abrangida pelo talão de desconto que prometia o pagamento de menos 25% em "postas de pescada".
O pobre funcionário, que julgava anteriormente ter conseguido chutar o problema para quem estivesse a trabalhar nas linhas de caixa, deparou-se com um problema que não sabia resolver e para o qual teve que pedir ajuda de uma colega:
- Ó Kátia Vanessa, tranches e postas é a mesma coisa? Blablabla desconto?
Na crónica diária que assina na mesma rádio, Fernando Alves começou por tocar no meu nervo da irritação projectando-se na minha mente como um peneirento com a pretensão de passar por grande filósofo. O tempo e os encontros radiofónicos ocasionais vieram a fazer com que me apaixonasse pela forma poética como declama o presente e pela forma como faz um malabarismo de diversos temas e referências em poucos minutos de emissão. Passei a segui-lo religiosamente, dentro do que me é ateiamente possível.
Quanto às postas de pescada, essas nunca chegaram a fazer o checkout do supermercado.