2016-06-20

7 segundos de Conde de Redondo

Desço a rua Conde de Redondo às tantas da madrugada quando avisto a uns escassos 50 metros, no sentido da minha marcha, uma mulher a agredir um homem enquanto grita histericamente.
Nos poucos segundos que me restavam antes de ter que passar por eles, enumero as hipóteses de acção que tenho à minha disposição:
  • Atravesso a estrada para mudar de passeio
  • Passo por eles tentando evitar levar estilhaços de discussão
  • Passo por eles e intervenho de alguma forma
Pergunto-me "What would Conceição Lino do?" e de forma instantânea perco a consciência naquilo que se suspeita que tenha sido um choque anafilático induzido por extrema alergia a tretas e moralismo de merda.
Quando retomo os sentidos e recupero o controlo do meu corpo que naquele momento já se encontrava a escassos milímetros de afagar o pavimento, a mulher atira ao homem uma pedra da calçada, falhando o alvo, e estilhaçando a montra de uma lavandaria.
Os gritos param durante cerca de 1 segundo dando-me a noção de que todo aquele descontrolo é completamente insanável a menos que haja a necessidade de formular um plano de fuga para evitar despesas.
Tomada que está a decisão de que é imperativo que se afastem do local antes que chegue a polícia mas sem dar parte fraca porque neste momento já há muito público a assistir nas janelas, a gritaria recomeça e preparam-se lentamente para atravessar a estrada mas não sem que antes o homem começasse a sua participação na peça de teatro, dando um pontapé nas costas da mulher, como quem arromba uma porta.

Oiço novamente a música do Carlão e do Boss AC e recorro a um pouco de fezes de cão para tapar os canais auditivos, recuperando assim algum conforto.
O que faço? Enfrento um gajo consideravelmente maior do que eu para pôr termo à agressão arriscando tornar-me num muito provável saco de pancada para dois ou ignoro o que se está a passar?
Não tive que esperar tempo algum pela resposta porque a mulher não se protege, não se afasta, nem de forma momentânea e reflexiva. Volta de imediato a dar tudo o que tem contra um gajo 30cm mais alto do que ela. Como não há muito que possa fazer contra a ausência de instintos de auto-preservação, mesmo que haja uma dependência emocional ou financeira, decido passar por eles e telefonar à polícia um pouco adiante, muito mais pelos danos na lavandaria do que pelo convívio sadomasoquista.

(E sim, estou bastante convencido que assisti a uma disputa que só poderia ser mediada pela ACT.)

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