2015-08-08

“Scratch any cynic and you will find a disappointed idealist.”

Sexta-feira foi dia de ver o último episódio do Daily Show apresentado por Jon Stewart, de tomar conhecimento de que o Tubo de Ensaio, programa de rádio de Bruno Nogueira e João Quadros, terminou de vez e de ver o debate entre os candidatos à nomeação republicana para a presidência dos Estados Unidos da América (sim, sou aborrecido a este ponto).

Longe de ser uma mousse de chocolate para a maior parte dos estimados leitores, deixem-me explicar-vos porque é que ver este debate foi interessante e é importante, não só para os norte-americanos mas para todos os que têm as patinhas no planeta.

No país mais evoluído e poderoso do mundo há um candidato à presidência que pretende que o aborto seja proibido em toda a qualquer situação (violação e perigo de morte para a mãe incluídas), porque é "pró-vida". Conta, evidentemente, com várias centenas de milhares de apoiantes, talvez milhões (relembro que estamos em 2015).
Há um outro candidato que usa um tom muito semelhante ao do senhor Adolfo, promovendo também algumas ideias no limite da tolerância racial. Este último está em primeiro lugar na maioria das sondagens e teve o requinte de dizer que a jornalista que foi mais feroz nas perguntas que lhe colocou, sangrava pelos olhos e por outros sítios, deixando bastante claro que o tom da fêmea só se deveu a TPM ou a uma disfunção hormonal.

Em Portugal as poucas pessoas que têm os neurónios no sítio ficam sucessivamente espantadas com a escolhas que os portugueses fazem nas urnas ou nas praias. A memória das massas a médio prazo é facilmente apagável com um porta-chaves ou uma t-shirt. Há também os que são incapazes de ver um país que não seja ou rosa ou laranja.
Esta Sexta-feira foi também o dia no qual se fez conhecer uma sondagem que dá um empate técnico entre António Costa e Passos Coelho. Não há, portanto, futuro. Os cidadãos deste país acham que ou se escolhe o passado ou o presente, não há alternativa.
Durante muito tempo pensei que este fosse um problema de QI que afectava apenas os meus compatriotas mas, observando a história recente de países como a Rússia, Venezuela, Itália, Turquia e Hungria, só para mencionar alguns, apercebo-me que o problema é generalizado e causa-me alguma impressão como é que tantos milhões de pessoas conseguem atar um sapato sem terem um esgotamento nervoso.

"Bullshit is everywhere."
Não sendo uma citação muito singular ou orelhuda, esta frase foi utilizada por Jon Stewart no momento em que se despediu do público e por George Carlin num dos seus inúmeros espectáculos de standup.
Voltando a Portugal, Bruno Nogueira e João Quadros ofereceram-nos tratados de jornalismo polvilhados com humor de uma acidez no limite do tolerável, que faziam o melhor possível para nos mostrar que aquilo que se faz e se diz com a maior das naturalidades, é muitas vezes completamente revoltante e inaceitável.

Esta foi também a semana em que se conheceu o feito heróico de um português em Paris que salvou uma cadela que havia sido parcialmente enterrada viva. Sim, considera-se que algo feito à luz daquilo que deveriam ser princípios básicos de qualquer ser humano, isento de qualquer risco, um acto de heroísmo.
Como é possível ter o mínimo de fé numa espécie que parece que já só pratica um acção bondosa se for por medo de ir parar ao Inferno ou para ter material para esfregar nas redes sociais?

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