2015-01-13

“Unless the world learns the lessons these picture teach, night will fall, and by the grace of God we who live will learn.”

Quem me conhece há algum tempo sabe que tenho uma fonte inesgotável de irritação e que não gosto nada da poetização que é feita em torno de assuntos sérios e que devem ser vistos com emoção, inevitavelmente, mas também com serenidade e capacidade analítica.

Foram muitas as pessoas decidiram colocar uma sela nos cadáveres das vítimas e cavalgar em direcção ao pôr do Sol (como nos cavalos da Chicco) utilizando uma tragédia para se revestirem de grande nobreza.
Também foram muitos que não pensaram sequer no que é que está em jogo e decidiram que eram Charlie porque havia uma hashtag a passar que não podiam perder (o mesmo tipo de prostitutas que se pavonearam com o "Ice Bucket Challenge").

- Não temos medo!
- Não nos vergarão!
- Liberdade de expressão acima de tudo!

Eu diria que franceses e europeus em geral estavam e estão, com bastante razão, borradinhos de medo, mas há que ceder ao sentido poético da coisa, há que mostrar o que realmente não nos passa pela cabeça: que temos uma coragem que realmente não temos.
Várias publicações alinharam neste grande grito de revolta mas houve umas tantas, que não querendo ser heróicas e tendo amor à vida e aos que os rodeiam, decidiram deixar de pôr o dedo no olho de Maomé. Compreendo e não tenho nada contra. Ser herói com a pele dos outros é fácil, enfrentar o calibre das consequências é que é difícil. Na verdade, ser verdadeiramente heróico é enfrentar as consequências tendo a certeza que elas chegarão e sabendo também o que são.

Liberdade de expressão acima de tudo? Mesmo que isso signifique gozar com Jesus, abortos, crianças trissómicas, pedofilia, violações e violência doméstica? Aposto que os muitos Charlies que por aí andam rapidamente abrem excepções à regra desde que isso lhes toque no nervo. Tivesse toda a gente liberdade de acção e não seriam poucos os autos-de-fé a serem postos em marcha.

Gente como o Rui Sinel de Cordes (provavelmente o maior motivador de queixas à ERC) dariam entrada directa num forno de cremação.
Até mesmo gente mais moderada e popular, como os Gato Fedorento, que receberam o maior número de tentativas de censura por parte de telespectadores quando fizeram um sketch acerca da Floribella, essa grande líder religiosa, não teriam um futuro risonho e de acordo com a liberdade de expressão que se apregoa.

Aposto que também há por aí muito taxista que é Charlie, abrindo excepções para o linchamento público direccionado a fufas ou paneleiros que achem que têm a liberdade de expressar publicamente a sua orientação sexual. A liberdade de expressão é uma coisa completamente ilimitada mas com alguns limites, que podem ser definidos pelos seguidores de Maomé ou pessoas com taxímetros no Mercedes.

A liberdade por si só (não a de expressão), muito elevada pelos políticos do momento, vai também certamente sofrer uma marrada que fará com que as gónadas de Edward Snowden fiquem a a latejar até ao final da sua existência.

Voltando à equitação cadavérica, gostaria também de mencionar esses grandes defensores das liberdades individuais e colectivas que são os membros da Frente Nacional e de outros grupos de extrema direita. Estes estimados seres gerados do mais fino extracto de poia, fizeram-nos o favor de vandalizar, ainda que ligeiramente, a mesquita da Praça de Espanha. Os muçulmanos em Lisboa são, como se sabe, altamente violentos e radicais. Necessitamos destes gordos de cabeça rapada para nos defender do nada.

 Foi nesta mesma semana, repleta de amor e tolerância, que fui apresentado a este maravilhoso trabalho a quem Alfred Hitchcock emprestou a voz. O impensável não pode voltar a acontecer, acontecerá.



Escrevo de forma anónima numa publicação electrónica decadente. Eu, certamente, não sou Charlie.

3 comentários:

  1. Tenho de ser honesto. Estive a ouvir um bocado do standup do Rui Sinel de Cordes... e acho que cremaCao viva era um castigo leve para ele.

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    1. Pior humorista de humor negro de sempre. Eh um Quim Roscas e Estacionancio mas num fato da Massimo Dutti.

      "Vou fazer uma coisa nova. Vou gozar com quem nunca foi gozado. Com as gordas. E os gays. E os padres, sabiam que sao pedofilos? Sou super original e sem vergonha. Pila, cona, puta, caralho. Porque aparentemente dizer palavroes eh muito estiloso e hilariante".

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