2014-04-10

Postas e Fernando Alves

Convencido de que iria embarcar em mais uma jornada de conhecimento e auto-descoberta, entrei no Minipreço para comprar laranjas.
Recolhido o produto que me levou àquele santuário de meditação, deparo-me com uma gigantesca fila que em alguns minutos foi partida em duas, aquando da abertura de uma nova caixa.
Como se a espera não fosse suficiente, à minha frente estava uma vagarosa idosa, com a qual já me havia cruzado, cuja cabeça havia tido um encontro romântico com uma cisterna de laca.

O empregado que veio a assumir os comandos da nova linha de produção de bips era o mesmo que já havia travado conhecimento com tal senhora, encontro esse que havia presenciado. A conversa que tinha agora  continuação prendia-se com o facto da senhora querer saber se a embalagem de "tranches de pescada" estaria abrangida pelo talão de desconto que prometia o pagamento de menos 25% em "postas de pescada".
O pobre funcionário, que julgava anteriormente ter conseguido chutar o problema para quem estivesse a trabalhar nas linhas de caixa, deparou-se com um problema que não sabia resolver e para o qual teve que pedir ajuda de uma colega:

- Ó Kátia Vanessa, tranches e postas é a mesma coisa? Blablabla desconto?

Enquanto aquele episódio de consultoria semântico-piscícola não chegava ao seu termo, lembrei-me de Fernando Alves, jornalista da TSF que me conquistou de alguns meses a esta parte.
Na crónica diária que assina na mesma rádio, Fernando Alves começou por tocar no meu nervo da irritação projectando-se na minha mente como um peneirento com a pretensão de passar por grande filósofo. O tempo e os encontros radiofónicos ocasionais vieram a fazer com que me apaixonasse pela forma poética como declama o presente e pela forma como faz um malabarismo de diversos temas e referências em poucos minutos de emissão. Passei a segui-lo religiosamente, dentro do que me é ateiamente possível.

Não sendo garantido que todas as edições me tenham gerado alguma comichão mental, a maior parte conseguiu tal feito. Ao fazer as pesquisas que achei necessárias para redigir este post descobri que este espaço que tanto prazer me tem dado existe desde 1995. Há quase 20 anos que este homem partilha connosco diariamente a forma como vê o mundo. É muito tempo.

Para aqueles que estão a esta altura completamente desiludidos por terem lido um texto que brotou das minhas patas sem uma sequer referência à Maddie, à Casa dos Segredos ou à Manuela Moura Guedes, aqui vos deixo um prémio de consolação que, não sendo uma referência do tom habitual, é um excelente exemplo da elasticidade das palavras e do encadeamento de ideias que se pode esperar deste jornalista.

Quanto às postas de pescada, essas nunca chegaram a fazer o checkout do supermercado.