2014-10-09

Excalibur

Perturba-me que uma parte considerável (ou pelo menos muito visível) das pessoas que defendem ferozmente os direitos dos animais tenha um coração tão grande e um número de neurónios tão pequeno.
É infeliz que uma causa tão nobre seja defendida com argumentação tão acéfala, especialmente quando há argumentos válidos disponíveis.

Excalibur deveria estar vivo por várias razões:
  1. É um caso único até à data
  2. Não se sabia se estava efectivamente infectado
  3. Seria uma oportunidade de aprender um pouco mais acerca da possibilidade de contágio homem -> cão e cão -> homem
Alegar que "se calhar também deveriam abater o namorado da enfermeira porque também teve contacto com ela" é uma tirada pseudo-irónica produzida por calhaus que nasceram roxos, com o cordão umbilical à volta do pescoço. Segurem esse fio de baba, por favor.

Os nossos animais de estimação, aqueles com os quais criamos uma relação afectiva, podem ter um valor superior ao de um humano que não gostamos ou até mesmo ao de um que desconhecemos. Há pessoas que deixaria morrer sem pestanejar se isso pudesse ressuscitar o meu falecido cão. Posto isto, um humano é um humano, um animal de estimação é um animal de estimação.
Não creio que o sistema nacional de saúde espanhol (ou de qualquer outro país) tenha dotado parte do orçamento ao tratamento de qualquer maleita canina. Isto leva-me ao ponto 1: por ser um caso único, talvez fosse possível lidar com ele de outra maneira. Se esta situação se tornar uma real pandemia, caberá na cabeça de alguém que todos os animais de estimação sejam colocados em quarentena? Quem fará esse trabalho? As clínicas privadas?
Desejo boa sorte àqueles que tentarem convencer a direcção das mesmas que devem tratar gratuitamente animais durante uma situação de emergência quando não o fazem no rotineiro dia-a-dia, quando tudo está calmo e quando não há uma crise mundial.

15 comentários:

  1. Considerando a negligência com que têm tratado este caso, considerando que não limparam o prédio onde vive a senhora, nem parte da ala onde foi atendida no hospital, considerando que eu até vivo em Madrid e podia ser vizinha do lado desta senhora, considerando que tudo devia ser feito depressa e bem, considerando que eu até tenho filhos pequenos e por eles temo, considerando que não teriam levado o cão como deve ser para um sítio onde poderia ser analisado, considerando que ainda não há estudos de jeito para os humanos quanto mais animais, a morte do Excalibur não me incomoda por aí além. Lamento, tens razão quando dizes que há gente que deixarias morrer (me too) sem pestanejar, mas como vivemos aqui no desconhecimento, o Governo não diz coisa com coisa e eu acho que até mente, como o pai da melhor amiga da minha filha até trabalha nesse hospital e elas estão juntas todos os dias e os protocolos estão a ser quebrados a torto e direito, lamento mesmo mas o Excalibur é coisa que me apoquenta pouco.

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  2. E se me vais responder que a probabilidade de um carro nos atropelar é bem mais alta que ser contagiado com Ébola, paludismo ou assim, sim, é. Mas ser mãe implica perder neurónios e começar a ver demónios onde não existem. É uma total esquizofrenia emocional, sim.

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  3. Bem sabes o sentimento que tenho por animais de estimação, mas de facto a história quer parecer "mostrar trabalho". O vírus parece transmitir-se facilmente, focam as atenções no cão, mas sabe-se lá em quantas pessoas toca uma enfermeira durante um dia. Dizem que o período de incubação do vírus é de cerca de 30 dias, não sei dizer desses dias quantos são passíveis de contágio, mas quer parecer que é motivo de preocupação.

    A enfermeira andou no prédio, tocou nas caixas de correio, tossiu nas escadas, arrotou no elevador, lambeu o papel do correio para virar uma página e levou a mão ao corrimão. Cenário dantesco num prédio com alguns 10 andares.

    E falava ontem com uma veterinária de investigação que diz que não há um caso conhecido de um cão com ébola. Partindo do princípio que esta investigadora não me está a mentir, foi mesmo para mostrar serviço.

    Só acho que não merece motivo para preocupação os abutres que se meteram à frente dos carros do serviço de saúde e acabaram atropelados e deitados no passeio. Se eu me meter à frente de um carro em andamento calha-me a mesma sorte.

    Daqui a 15 dias tens o primeiro caso em PT.

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  4. Vamos ver pelo lado positivo:
    Ai, espera. Não há. Vais morrer daqui a 3 dias mas antes mataram-te o cão.

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  5. O que me irrita é que um caso facilmente defensável tenha sido defendido de forma tão pobre, tão irracional.

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  6. Tão irracional como matarem o cão à pressa? E o homem dela? Também já foi? Ou há menos probabilidade de ter trocado fluídos com ela?
    Pessoas pouco inteligentes é o que para aí mais há. Mesmo quando têm razão.

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  7. Continua a haver uma barreira que separa os humanos dos animais. Neste momento é possível fazer melhor, daqui a uns tempos não será possível colocar em quarentena um avultado número de animais, tal como não é possível dar um lar a todos eles num tempo que não é de excepção.

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  8. Enquanto era só um cão, em vez de o abaterem, poderiam ter concluído que não há perigo de contágio. Ou que há. Mas saber, comprovadamente, o que fazer nos próximos casos. Planear. Preparar. Deste modo, matou-se o cão, a oportunidade passou, e “daqui a uns tempos” poderemos ter dezenas (?) de animais na mesma situação. E então? Não temos onde fazer quarentena e teremos onde os abater? Ou informação sobre se isso é o mais correto? A barreira que nos separa deles inclui conceitos com a Ética. Assim mesmo. Com maiúscula.

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  9. Creio que não terás lido bem o post. É exactamente isso que defendo.
    Quando à capacidade de abate vs capacidade de manter em quarentena é uma questão matemática simples: o abate deixa o problema por alí, a quarentena exige espaço, observação constante e recursos humanos que não existem. Se já hoje não há clínicas que prestem cuidados gratuitos aos cães resgatados, haverá quando essa necessidade de cuidados crescer exponencialmente? Creio que não. Obviamente a boa vontade de voluntários não será o suficiente para convencer qualquer governo de que uma matéria desta gravidade pode ser tratada por pessoas sem formação académica na área.

    Não estou a dizer que isto me agrada, estou apenas a dizer que é a realidade.

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  10. Talvez precises de informar-te.

    O maior entendido quanto ao Ébola já disse que abater o animal foi um erro enorme. É que sequer fizeram análises. Era importante manter o cão de quarentena para a actuação do vírus. Seria um importante avanço no estudo e prevenção do mesmo.

    Depois, sequer desinfectaram a ambulância que, a seguir à enfermeira, ainda foi buscar umas quantas pessoas.

    De resto, acho que está tudo dito pela Juanna e pela Maçã.

    Basicamente, abater o cão foi uma manobra de distracção para toda a merda que fizeram. Resultou.

    Espanta-me que tenhas sido tu a escrever este texto.

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  11. Peço desculpa, não tinha dado conta que tinha escrito em mandarim. Repara só neste copiar/colar que acabo da versão portuguesa do post:

    " Excalibur deveria estar vivo por várias razões:

    - É um caso único até à data
    - Não se sabia se estava efectivamente infectado
    - Seria uma oportunidade de aprender um pouco mais acerca da possibilidade de contágio homem -> cão e cão -> homem"

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  12. É que a malta distraiu-se com a forma criativa como escreves dia-a-dia.

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  13. Será que posso usar a cartada "extremamente sonolento"?

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  14. Sabemos que só poderá ter sido isso. Em ti, a língua é forte. Por assim dizer.

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