2013-05-03

25 de Abril e Menina Design Group

25 de Abril de 2013

No único dia do ano em que se podem encontrar no mesmo local, presidente da república, presidente da assembleia da república, primeiro ministro, ministros e deputados, o povo decidiu demonstrar que está bem, lida bem com o que se faz naquela casa e que não teme minimamente nem pelo presente nem pelo futuro.

Quando terminaram as comemorações oficiais havia pouco mais de 20 pessoas à entrada da assembleia, calmas, passivas, silenciosas.
No único dia do ano em que se impunha um cerco para o qual bastavam apenas os cidadãos desempregados, os portugueses manifestaram-se de forma bem clara: "vamos para a praia" ou "vamos aproveitar o feriado para dormir".

Não estamos, claramente, a apanhar no focinho o suficiente.
Continuamos a comprar nas grandes superfícies, a utilizar as caixas de pagamento automático, a depositar dinheiro nos bancos cujos administradores são comprovadamente corruptos, que lesam os contribuintes ou que simplesmente proferem declarações que deviam merecer uma violenta condenação.
Estou-me completamente a lixar para a política do medo que nos vendem quanto ao que pode acontecer ao sistema bancário se levantar todo o meu dinheiro do banco. O BES, por exemplo, não voltará a ver o meu dinheiro enquanto tiver este senhor aos comandos (embora mantenha depósitos noutros).
Adivinhem só o que é que os accionistas fariam se 50% dos depositantes tomassem esta atitude declarando a razão que a originou?
Adivinhem só o que é que aconteceria aos bancos que estivessem envolvidos nos negócios mais pornográficos se os portugueses mostrassem que não tolerariam mais alimentar este tipo de conduta?
No final de contas, 2 milhões de clientes que fechem uma conta com 500 €, é coisa para fazer mossa. David pode perfeitamente derrotar Golias.

O Menina Design Group é um grupo que está a tornar-se famoso nos últimos dias, pelas razões menos simpáticas.
Os vários testemunhos que estão a surgir no site www.ganhemvergonha.pt levam-nos a concluir que esta é uma daquelas empresas que usa trabalho gratuito e ilegal com a completa colaboração dos que lá trabalham e dos que por lá passaram.

Estes trabalhadores não se deram ao trabalho de apresentar queixas na Autoridade para as Condições no Trabalho? As poucas pessoas que conheço que o fizeram, ganharam. Estou a falar de 100% de sucesso.

Toda a minha vida ouvi dizer coisas como "isso não vale a pena, não vai dar em nada".
Este é o comentário quase zombatório de que fui alvo sempre que dizia que ia tentar mudar X ou Y apresentando uma queixa, escrevendo uma exposição, autografando um livro de reclamações.
Fui quase sempre surpreendido não só com a eficácia como com a rapidez dos resultados.

Interrogo-me porque é que quem saiu do pesadelo que dizem ser o Menina Design Group não foi suficientemente altruísta para denunciar oficialmente um problema que deixava de ser seu, mas que continuaria a afectar muitas pessoas e afectaria muitas mais no futuro.

Talvez tenha alguma coisa a ver com o que não se passou na Rua de São Bento no dia 25 de Abril de 2013.

1 comentário:

  1. Este post lembra-me em tudo o que se passou com a petição para evitar que o Sócrates fosse comentador político da RTP. Foram 135 mil pessoas a assinar e, no dia da estreia do programa, estavam cerca de 10 pessoas à porta da sede do canal, "contra" 20 de apoio ao bandido. Contra mim falo, que fiz uma coisa e não fiz a outra.

    As pessoas que ainda estão empregadas vivem num clima de medo e desilusão, a ganhar cada vez menos e a ver os colegas de trabalho a sair, sem garantias nenhumas de que não serão as próximas. Já nem a lei do trabalho garante ninguém, o subsídio de desemprego, quando chega a acontecer, deixou de ser a solução a médio prazo para muitas famílias.

    Também existe um enorme descrédito relativamente à classe política, apontada como responsável pela conjuntura de crise que estamos a viver. Até não há muito tempo, a solução que as pessoas viam à vista era mudar o governo. Depois foram aprendendo, embora tenham levado para aí duas décadas, que essa mudança era inútil. Nem mesmo o último recurso, que é o revolucionário, parece ser A solução. A questão é "mudar para O QUÊ? quem é que se chega à frente? quem é que, neste momento, tem competências para governar este barco, que se está a afundar por todos os lados?".

    A situação do país parece o rescaldo de um terramoto. Os que sobreviveram, estão apenas a tentar salvar o máximo possível e à procura de uma solução que não encontram em lado nenhum. Sabem apenas que vão existir reincidências e não sabem nem se sobrevivem nem se tudo aquilo que conseguiram preservar até agora não se vai no próximo abanão.

    Não fui eu que disse isto, mas acredito que não estamos muito longe de uma conjuntura semelhante à da Alemanha dos anos 30'. Aparece-nos um alucinado um destes dias, com a promessa do que queremos ouvir, e vamos todos atrás do que ele disser e ainda fazemos dele o nosso líder.

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