2011-11-24

Em tempos de maior aflição, quando senti fome, não foram poucas as vezes que pedi a Deus um bitoque*. As minhas orações nunca foram atendidas.
No dia em que Deus mandar de lá o filho dele para me servir uma coisa em condições, gostosa, com um bom molho para aconchegar o pão, terá conquistado a minha admiração e sustentará no meu íntimo a sua existência.

* A verdadeira fé vem com ovo.

2011-11-22

Extravagâncias

Vamos assumir por momentos que há outras crianças e adultos que, tal como o filho do Carlos Martins, gostam de não-morrer. Imaginem que todas elas são anónimas e que os seus familiares lançaram apelos por e-mail, Facebook, etc.
Porque carga de água é que milhares de portugueses decidiram ser passivos perante a morte dos outros e surgem agora carregados de solidariedade e emoções puras?

Deixo-vos com esta questão despedindo-me com um comovido vão-para-o-caralho.

Nota - Medula não é uma coisa que se verte para uma garrafa de Fastio e que se dá a alguém à nossa escolha. O que vocês vão fazer, recém solidários, é apenas um teste de histocompatibilidade. Para vossa infelicidade poderá descobrir-se que são compatíveis com outra qualquer pessoa que não é famosa. Uma chatice.

2011-11-09

Na penumbra

De há uns dias a esta parte tenho acordado por volta das 6:30 da matina, sem razão aparente e uma hora adiantado em relação àquela a que habituei o meu corpo.
Há três dias que noto um segundo padrão que anda em torno do enrijecimento da minha estrutura sexual.

Pergunto-me se não será ele que me acorda, qual criança reguila, e que depois se esconde, fazendo de conta que é um espectador inocente que por mero acaso se encontrava nas imediações.

2011-11-07

A derradeira definição de Amor

É o equivalente humano às espículas presentes nas vergonhas felinas.

2011-11-06

Legado cromático

E Zordon disse:
- De agora em diante vais vestir-te sempre com a mesma cor e do teu fato de nylon emanarão faíscas sempre que apanhares nas trombas. É essa uma das funções do nylon, emanar.

Cumpriu-se a sua vontade.

2011-11-04

Caridade acidental

Por mera infelicidade o único centro comercial que tenho que frequentar várias vezes por semana parece ter, de forma permanente, senhoras exacerbadamente simpáticas a tentar recolher fundos para obras de caridade, o tipo de pessoas que fazem com que o waterboarding pareça uma boa ideia.

Embora estando devidamente habituado a lidar com as pastilhas elásticas que são os chacais do Barclays Card, desembaraçando-me deles com facilidade, não consigo driblar estas senhoras. A minha boa educação não me permite passar por elas sem parar, abanando a cabeça e dizendo um "não obrigado". Sou compelido a parar e "escutar". Trata-se mesmo de um "escutar" até porque geralmente não as deixo acabar o discurso que têm mais do que ensaiado.

Porque o silêncio, para mim, vale realmente dinheiro, assim que percebo que o objectivo não é vender nada mas sim sacar donativos, chego-me com uma nota à frente e, ao ser questionado acerca de qual dos bonequinhos que servem como troca nesta pseudo-venda pretendo como recompensa, respondo que o deverá entregar a alguém que precise. Em 15 segundos fiquei 5 € mais pobre e comprei paz durante alguns dias.
Na semana seguinte sou novamente abordado. Com a mania que sou esperto, exclamo rapidamente que já tinha feito um donativo há 10 dias atrás. Sou informado de que esta é uma nova acção e que a da semana passada era a de uma outra associação.
10 segundos depois estou 5 € mais pobre, comprei silêncio por mais 7 dias e, com um pouco de sorte, contribui para a manutenção de uma qualquer casa de alterne ou uma quinta onde têm trissómicos agrilhoados ao chão.