2011-10-18

"É o país dos revolucionários de café e Che Guevaras de sofá."*

Não respeito pessoas que formam as suas opiniões à medida dos seus interesses. O que hoje é moralmente aceitável não deverá deixar de o ser amanhã só porque já nos toca no lombo.

Embora concorde um pouco mais com esta manifestação do que com a anterior, tanto no tom como no local, custa-me alinhar naquela massa. Não me aprumo por todos aqueles que insistem em não admitir as sua participação no afundamento do país. A corrupção e fuga aos impostos é algo completamente transversal a todas as classes sociais. Não serão poucos os que agora se vão juntar aos protestos e que, nos tempos mais gordos, fugiram aos impostos não por uma questão de sobrevivência, mas para poderem comprar um Mercedes em vez de um Renault. 100.000 a roubar 10 € será sempre pior do que 10 a roubarem 1.000 €. Posto isto, tenham a bondade de não me foder com as balelas habituais até porque, mesmo que me dêem beijos na nuca, até ver, isto é canal de sentido único.
Também me custa caminhar na mesma rua e fazer parte do mesmo grupo de pessoas onde se encontram alguns dos seres que mais desprezo: anarquistas e a esquerda caviar (ambos registam o evento tirando fotografias com Iphones).

Warren Buffett, multimilionário norte-americano, propôs uma taxação mais elevada para as grandes empresas e surgiu como uma espécie de herói fiscal. Para mim ele é apenas inteligente e de herói nada tem.
Não foi por mera piedade para com as classes mais baixas que sugeriu tal "esforço". Buffett sabe bem que o mesmo que tornou a economia algo de global, um bicho que faz com que países inteiros desabem como peças de dominó, também quebrou toda e qualquer capacidade de controlar a informação.

Tal como a "primavera árabe" e o Wikileaks tão bem demonstraram, a internet é uma ferramenta literalmente imparável, uma espécie de Skynet invertido que não pode ser desligado sob pena de destruir o mundo.

O amigo Warren percebeu que a terceira guerra mundial pode não ser entre nações mas sim entre classes sociais. Se os pobres forem estrangulados os ricos não só não terão trabalhadores para continuar a encher a sua alcofa, como enfrentarão a fúria de milhões de pessoas desesperadas.
O que se passou em Londres foi uma brincadeira de crianças. Se houver uma ideologia agregadora por detrás da violência, as repercussões serão incalculáveis.

Porque é que a indignação que dá o nome a esta manifestação não é extensível à exploração feita pelos países mais desenvolvidos em relação aos de terceiro mundo? Só são maus os que têm mais dinheiro do que nós, é isso?

Desejo uma boa e vigorosa dose de cerâmica das Caldas da Rainha para todos aqueles que se sentiram ofendidos pelo conteúdo deste texto.

* Pedro Miguel Silva Filipe

8 comentários:

  1. bem, por onde começar...
    Eu fui a ambas as manifs ( por acaso concordei mais com a anterior do que com esta - tendo em conta que as agendas das manifs são uma coisa, os sound bytes outra e a minha cabeça outra ).
    Sim, os mais pobres fogem aos impostos, sim. Não me parece que o façam na proporção que as classes mais altas o consigam fazer, mesmo com essa comparação a desculpabilizar os 10 que roubam 1000.
    Quanto à esquerda caviar, vi lá bastante ( eu também devo ser esquerda caviar, pensando bem, até tenho os dentes da frente todos ) mas não me parece que o facto de alguém ter dinheiro valide ou invalide ter algum tipo de ideologia específica - eu por exemplo não percebo como há pobres de direita - e de sair à rua e defender o seu ponto de vista, que afinal poderá trazer beneficios não só a si como a outros em pior situação. Altruismo não será, mas as vantagens ou desvantagens colhidas de um movimento politico não afectam apenas os 10 tipos que estão numa manifestação. É a democracia.
    Quanto ao Buffet, concordo plenamente e é por isso que tenho de reclamar na rua com o que se passa por cá. É uma questão prática, vital. Matar à fome quem nos dá de comer não é inteligente, mas a nossa classe politica e empresarial parece preferir estimular a caridade em vez de defender salários dignos.
    Quanto à indignação sobre a exploração dos países mais ricos em relação aos mais pobres, devo dizer que também lá estavam defensores dessa causa, mais globalizada e invariavalmente defendida pelos tais anarcas que merecem desprezo. ( não admira, uma utopia, é como defender que o sol não nasça amanhã, não é? Mas há gente para tudo, felizmente. )

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  2. O teu post é contraditório. Dizes que não respeitas as pessoas que formam as suas opiniões à medida dos seus interesses. Mas gozas manifestantes que marcam presença de iPhone na mão. Ainda bem que há quem tenha dinheiro e se venha manifestar à mesma. São poucos, infelizmente. Porque a tua primeira frase está certa: os que formam opiniões à medida dos seus interesses ainda são a maioria. E por causa desta falta de solidariedade que não saímos da cepa torta.

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  3. Viva. Até concordo com muito do que dizes.

    Todos roubam (incluindo pobres) pois o problema não é de uma classe ou de outra. É sistemico... É o facto de isto ser uma sociedade "liberal" onde a escassez é uma realidade e onde o consumismo é incutido desde a nascença.

    Já eu não tenho nada contra anarquistas... Os verdadeiros note-se. Não aquela ideia que os desinformados têm que os anarquistas defendem um mundo desorganizado e sem regras.

    O facto de haver esquerda caviar a protestar é bom. O facto que me desagrada é alguem comer caviar. Seja de esquerda, seja de direita. Lá está... é o tal do consumismo. É o gastar em coisas superfluas aquilo que pode salvar vidas se aplicado de maneira diferente. mas quem sou eu para criticar... Tambem tenho as minhas coisas superfluas...

    Quanto à indignação sobre a exploração dos países mais ricos em relação aos mais pobres parece-me irrelevante que não tenha sido abordado(que foi)de forma directa.

    A verdade é que o facto de algo mais estar mal, não invalida as razões e legitimidade do protesto. Por outras palavras, O facto de existirem situações e pessoas em piores situações do que os que protestaram, não torna menos nobre a causa.

    se fossemos a pensar sempre assim, teriamos que protestar não só pela fome em àfrica , mas tambem pelos maus tratos domesticos, pela pedofilia, pela guerra na libia, pela tortura de animais, etc.

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  4. Sem fazer comentários longos,sem partidarismos e sem demagogias, eu, que conheço bem a realidade da fp, estou, além de indignada, bastante apreensiva com o futuro deste país.

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  5. Não me vou alongar, só vou referir este ponto "Não me aprumo por todos aqueles que insistem em não admitir as sua participação no afundamento do país. A corrupção e fuga aos impostos é algo completamente transversal a todas as classes sociais." Que para mim diz tudo! E subscrevo...

    Eu tenho dito que isto não vai para a frente enquanto não houver uma mudança de mentalidade quer dos políticos quer de todos nós!

    Conheço quem tenha um anúncio de emprego no jornal desde o início da semana e até hoje vieram duas pessoas para uma entrevista, e não quiseram o trabalho!

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  6. Eu só sei que tá tudo maluco da cabeça e que tou a ficar muita, muita, muita farta desta merda toda. Tá tudo dito. Prontus.

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  7. Adoro quando tentam imputar-me palavras que não escrevi, só para validar contra-argumentação baseada em ideias que não expressei.

    Prezado, onde escrevi que desculpabilizava os "10"?
    Neste contexto olho para o Iphone como um símbolo do capitalismo. Será que num regime comunista seria possível fabricar um produto que é vendido com uma margem de lucro de cerca de 70%? Não me parece.

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