2010-07-30

António Feio - Palmas para os sentimentos forjados

Eu tento sempre que possível evitar estes assuntos que vão ser mais que falados em tudo quanto é blog mas, este em particular, não evitarei por essa mesma razão. Vai estar em tudo quanto é sítio e vai meter muito nojo.

António Feio não me tocou nem enquanto homem nem como profissional. A morte dele comove-me tanto como a de qualquer outro algarismo por esse mundo fora.
Irrita-me que se tenha feito dele, por ter tido a má sorte de ter cancro, uma espécie de herói nacional do IPO. Tirando as pessoas que sofrem, sofreram ou conhecem alguém com quem têm afinidade que já padeceu do mesmo mal, acho uma completa palhaçada este sentimento de luto em massa que se vai fazer sentir nos próximos dias.

António Feio não é nem nunca foi uma grande referência em Portugal. Poderá ter sido uma boa pessoa? Não faço ideia nem quero saber. Apenas sei que o que mais me incomoda na morte dele é o facto de ter que passar um dia sem me poder cruzar com a imprensa nacional.

O medo da morte não deveria ser razão suficiente para fazer de uma pessoa aquilo que ela não é.

Adenda: - Este post só pretende ser ofensivo para aqueles que do nada começaram a ligar a uma pessoa só porque ela tem cancro. A morte do António Feio é uma notícia mas não justifica o mais que previsível espalhafato mediático que estou certo que irá ser.
O nosso medo de um dia ter que andar nos sapatos dele não deveria ser o suficiente para alterar a forma como apreciamos o seu trabalho. No final de contas, a maior parte das carpideiras que se vão passear pela imprensa fazem-no porque fica bem.
Lamento a sua morte mas não altero a minha opinião acerca dele só porque ele sofreu nos últimos meses de vida. Conheço-o como profissional, não vou reagir como se fosse um amigo.

14 comentários:

  1. "António Feio não me tocou nem enquanto homem nem como profissional. ". Se não te tocou a ti, não quer dizer que não tenha tocado milhares de pessoas. Logo, concluir que os sentimentos são forjados é, vá, estúpido. E se calhar não conheces um terço do trabalho que ele fez, mesmo fora da representação.

    Eu acho que não se abordar o assunto na imprensa de hoje é que não faria sentido nenhum. Toda a gente o conhecia, há ano e meio que se acompanhava a luta dele contra o cancro (por vezes demais e de forma imprópria), isto é, para lamento do Piston, notícia.

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  2. Subscrevo inteiramente Piston!
    Sara: o que o Piston critica é a forma como a imprensa vende esta notícia de forma massiva! Infelizmente vivemos num país em que tudo serve para vender, exaltando valores que na realidade não existem ou são mínimos, após a morte do artista.

    As pessoas compram aquilo que lhes quisermos vender: neste caso a imprensa está a vender uma história muito forte que tem a ver com 2 grandes fórmulas: a tragédia (cancro) e a pseudo-fama. Isto traduz-se em milhões de Euros ganhos por alguns grupos de media nesta semana e na próxima...
    Na realidade ninguém quer saber nada do que sofreu António Feio.

    Os meus sentimentos à família de António Feio e a todas as famílias que sofrem ou sofreram com esta doença.

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  3. Sara, lê o que acrescentei.

    Vonveiros, não é só isso. Também incluo o povo que neste e em outros "eventos" semelhantes passam a ser fãs número 1.

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  4. Admiro a tua frontalidade e concordo inteiramente com a tua exposição. Parece que há uma sede de heróis cada vez maior.

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  5. Infelizmente é verdade, a imprensa agiganta a coisa.
    A mim tocou-me a morte dele, porque já vivi cancros na família e amigos, e quer queiramos, quer não, é uma doença que desgasta muito emocionalmente,mesmo quando se supera,e não só à pessoa doente, mas também a quem o rodeia. E devo dizer que o António Feio, como actor e encenador, também não era a minha maior referência (acho que só vi uma peça com ele há uns valentes anos que nem sequer foi muito conhecida), apesar de lhe gabar a queda para a comédia, mas que ganhou todo um outro respeito da minha parte como ser humano pela maneira como encarava a doença. Nesse aspecto, e mesmo não o conhecendo, era visível o optimismo e a força e a coragem. Só que não foi por isso que fui ver mais peças encenadas e representadas por ele.
    Mas que se tornou uma figura marcável, seja pelo trabalho, seja pela doença, isso não dá para negar...

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  6. Piston,
    Mais uma vez, subscrevo!

    Acho que até o zé cabra quando morrer vai ser homeganeado pelo povo... se isso ajudar a vender revistas.

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  7. Li agora a adenda e estamos de acordo. Acrescento só que isso de endeusar as pessoas quando elas morrem é geral. Quantas pessoas não suportam aquele vizinho chato que faz barulho e reclama com todos mas, quando morre, ai que era tão bom homem, cheio de vida e sempre zeloso do património do prédio.

    O que me chateia mais nestas coisas sãos os clichés. Há sempre alguém que vai dizer:

    -"Os bons vão embora, os maus é que ficam"
    -"Num momento estamos cá, no outro já não"
    -"Não somos nada"

    Por aí em diante.

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  8. Certo, mas aqui tens uma agravante: ele é famoso. Fica bem estar muito triste (daí o título do post).

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  9. Da mesma forma que é exagerada a reacção das pessoas quando uma personalidade morre. Também acho exageradas as reacções de indignação das pessoas que se irritam porque os outros são uns exagerados. No fundo, vai tudo dar ao mesmo.

    Relax. O homem morreu, paz à sua alma. Já se sabe que a comunicação social tenta aproveitar esta situação para vender mais. Achas que isto vai mudar? Não.

    Caga para o assunto...

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  10. claro que depois de morto, qualquer talento é amplificado, idealizado. Neste caso, um actor que gostava bastante, um talento especial e uma referência na comédia, para o pessoal dos 30's. Que foi realmente importante, na sua área, isso não é ilusão. Digo eu.

    Mas que há uma mistificação da luta-contra-a-doença, (como se não fosse desejo de todos não morrer antes de tempo) e uma exploração até ao enjoo de opiniões de amigos, conhecidos e pessoal que se cruzou com ele na casa de banho do tivoli em 1983, há. Responsabilize-se a televisão, o povinho só come o que se lhe dá. E o Povinho precisa destas catarses, para poder comover-se, para poder dizer e ouvir cancro em voz alta, e claro, para alimentar a alma tuga do desgraçadinho.

    Eu, por acaso, escreveria algo semelhante a este post relativamente ao Saramago.

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  11. Bruno, caguei.

    Prezado, o que eu acho é que se devia fazer uma estátua ao Dino. Esse é que devia ser homenageado.
    Outro tipo que anda a ser homenageado é o Beto... pela editora. É isso que dizem no spot na televisão. Devem estar a dar os cds de borla...

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  12. Pensei que era a única pessoa neste país a ficar indiferente, no sentido de não ficar aos caídos nem devastada. Aginal há sempre um piston para me reconfirtar nesta insensibilidade popular.

    aproveito para fazer uma referência.
    "O nosso medo de um dia ter que andar nos sapatos dele" sempre quis usar esta super expressão walk in his shoes em qualquer lado e nunca consegui. PISTO AO PODER!!!!

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  13. O próprio referiu várias vezes que infelizmente teve de se descobrir a doença para ter tanta atenção dos media.

    Por acaso no meio artístico o António até era uma grande referência como encenador e actor ao contrário do que afirmas. Se não conheces não faças afirmações disparatadas e sem fundamento para defender um ponto de vista (o teu). Sempre gostei dele e sempre o achei pragmático, inteligente e com um grande sentido de humor que usava como poucos. Se era assim ou não, não sei.
    Não digo que não tenhas razão em relação ao excesso de cobertura da imprensa e da sua utilização para vender mas é o mercado...se há procura, oferece-se. E o povo gosta de chorar e dizer que que eram todos muito bons mas é depois de morrerem e as figuras públicas aproveitam para aparecer quando muitos nem o conheciam pessoalmente e outros nem lhe falavam.

    A ânsia de ser diferente, mais "iluminado" que os outros e muitas vezes faz com que caiamos no ridículo.

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  14. Estimado Sérgio,

    Para mim, pelo menos, não era referência, apenas uma figura simpática.
    Por aqui não há ânsia de ser popular por ir na corrente ou por ser contra-corrente. A única ânsia que há é a de encontrar pessoas que se identifiquem com o que penso ou que estejam contra mas que tenham uma forma inteligente e, se possível, divertida de o fazer.
    Expresso com frequência opiniões que não são partilhadas pela maioria e faço-o por isso mesmo. Dizer que o Sol é quente é banal e óbvio demais para que se escreva uma só palavra acerca disso.

    Ridículo? Não creio que tenha caído. Sou-o em abundância e em inúmeros posts.

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