2009-08-05

Ética à retaguarda

Viajava num comboio regional, num daqueles em que há poucos passageiros e em que devido a peripécias durante o percurso nos tornamos, por breves instantes, numa pequena família.
A viagem decorria à tarde, porém, o cansaço era mais que muito. Boa parte das pessoas dormiam, algumas haviam aproveitado a baixa lotação para se estenderem ao comprido, dormindo como bebés.
Exploro outras carruagens em busca de espaço livre. Encontro-o e deito-me em posição fetal.
A minha mente passeia nos limites da consciência. Algo me incomoda. Sinto uma pressão gasosa no recto. Tenho-a sob controlo mas conseguirei fazê-lo durante o sono?
Dois terços dos olhos fecham, o resto permanece num perigoso limbo.
Acordo sem a noção do tempo mas com a sensação "smoking gun". Teria gaseado a minha família? Que tipo de monstro teria tal falta de compaixão?
Levanto-me e afasto-me de olhar no chão.

Este texto é dedicado aos homens que todas as manhãs assustam os pássaros do bairro quando estão no banho e a todas as mulheres que sofrem em silêncio (também conhecidas como bufadoras).

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