2008-08-03

3 de Agosto de 2007

(Tal como prometido aqui.)

Sim, o texto vai ser longo.

Vale a pena ler? Claro!
Envolve dor que foi incutida neste que vos escreve? SIM!

Divertimento garantido.


12:00 - Caminho com os olhos baixos. Sinto cada detalhe do chão, cada pedra da calçada. Por muito poético que possa parecer, tudo se deve ao facto da sola dos ténis estar para lá de gasta. Prometo a mim próprio que não voltarei a fazer uso deles.
Para trás ficou uma hora e meia de transportes públicos que me levaram ao coração de Lisboa.
Apresento-me na recepção e informo que me disseram que era para estar lá às 12:30. Pedem-me para esperar. Dizem que vão tratar do processo e já me chamam.

Estou em jejum (não-opcional porra!), nem sequer água bebi. Olho para a televisão e está a dar o Goucha. Pego num x-acto e vou cortando o céu-da-boca, só para ajudar a passar o tempo e a controlar a dor que é ver aquele cozinheiro afrutalhado.

12:25 - A senhora da recepção vai ter comigo e acompanha-me ao 2º andar. Dá-me mais alguns detalhes e diz-me que aquela vai ser a minha cama. Devo aguardar que um enfermeiro me aborde.
Na enfermaria está um senhor. Cumprimento-o cordialmente, e rezo para que me deixe sossegadinho. Não estou com grande vontade de contar a minha vida.
Instalo-me e observo a toilette que me está reservada: bata e touca. Eu gosto de andar nu, como tal, parece-me bem. O meu único receio é que, por uma vil manobra hemofilosófica, fique com algo espetado no ar, ficando assim bem visível o meu nível de alegria.
O meu "companheiro" recebe alta. Apercebo-me que sou o Rei da enfermaria. O comando da televisão, é MEU!

14:00 - Novo "companheiro". Velhote careca que me explica com entusiasmo que rapa todos os dias o cabelo com lâminas de barbear e que depois a esfrega com uma mistura de betadine+álcool. Diz-me que resulta e que já lhe está a começar a crescer cabelo.
Lamento a minha sorte quando sou forçado a fazer alguns comentários genéricos sobre futebol. Não percebo um boi mas desenrasco qualquer coisa. Não quero que um homem que vai permanecer imóvel durante a noite pense que eu sou "amigo do Goucha".

15:00 - Finalmente um enfermeiro! Pede-me os exames, diz-me para vestir a bata bonita e mais nada por baixo. Obedeço, dou a pata e deito-me na cama. Adormeço para tentar enganar a fome e sede que me estão a dar cabo do juízo.

19:00 - Duas enfermeiras vêm buscar-me para o bloco operatório. Depois de me observarem apercebem-se de que sou um homem e que NÃO TENDO SIDO INFORMADO não depilei a zona em que vou sofrer a intervenção. Sim, parece-me óbvio que seja conveniente a ausência de pelos, mas nunca cheguei a pensar nisso.

19:15 - Cortam-mos deixando-me as pernas às listas. Sou conduzido, deitado na cama, até à sala do matadouro. Sinto-me ridículo por não ir pelo meu próprio pé.

19:25 - Sou entregue no bloco operatório e sou recebido pela anestesista. Tem um sorriso de varrer um gajo de alto a baixo e uma capacidade especial para me criar uma bolsa de soro debaixo da pele da mão. Falhou o alvo e em vez de meter a intra-venosa na VEIA, espeta-me o soro em parte indevida.
Ela pede imensas desculpas enquanto me espeta repetidas vezes na tentativa de fazer a coisa bem. Respondo que não tem problema, que às vezes acontece e que se for preciso lhe empresto um martelo pneumático. Exclamo tudo isto com a voz de quem está a defecar um cacilheiro. Aquilo foi coisa para doer um bocadinho.

19:35 - Alguém que começou a sair de uma anestesia, começa a gemer. Certamente tem uma pedra na boca, porque não se percebe nada do que diz.
Explicam-me o tipo de anestesia que me vão aplicar e dizem-me que agora sou capaz de ficar um pouco confuso. Penso para mim: deves achar que não aguento essa merda-tens-razão-isto-está-a-bater-com-uma-força-do-caraças! Mantenho-me acordado mas pouco consciente. Adormeço por tempo indeterminado.

Sei:lá - Acordo enquanto me levam para a sala de operações. Cumprimento o zé-da-faca e prometo a mim mesmo que vou ficar acordado e ver a carnificina pelo monitor. Mando uma piadola ou duas à equipa, mostrando que estou descontraído e que se não estivesse em jejum dava um flato ou dois só para desanuviar o ambiente, para o tornar mais acolhedor.
Dizem-me que agora é que é a anestesia.

Sei:lá e uns minutos - Acordo e penso: Ups! Onde está a minha pila? As minhas pernas? NÃO SINTO NADA DA CINTURA PARA BAIXO!
Não, não entrei em pânico, já sabia que ia acontecer. Não vejo nada para baixo, está tapado. Apercebo-me que estou nu e que aquela merda que anda a voar de um lado para o outro são as MINHAS PERNAS! Penso para mim que esta seria uma péssima altura para receber um fellatio.
Apercebo-me pelo ecrã que o senhor doutor já está a escavacar o meu joelho com uma retroescavadora.
Adormeço de novo.

22:00 - O terror.

8:00 - Hora de mostrar a pila a outra enfermeira que levanta os lençóis sem saber que eu estava nu.

9:00 - Hora de mostrar a pila a uma senhora doutora que levanta os lençóis sem saber que eu estava nu.

10:00 - Hora de passear nu pela enfermaria (onde já estão mais dois pacientes) e pelo corredor e de mostrar a pila a mais 3 ou 4 pessoas.
Não é que a cabra da enfermeira me mete numa cadeira de rodas para eu ir tomar um duche e não me tapa com nada? Eu convencido que aquilo era habitual.
Em condições normais não me importaria. Mostraria a todos a minha imponência. Naquele dia, em especifico, tinha o órgão sexual mais mirrado de todo o concelho. Dignidade = 0.
Na volta para a cama, é outra enfermeira que me vai buscar. Manda-me tapar-me com uma toalha, não me queria ver as vergonhas! Passei por pervertido sem o querer ser.

12:00 - Saio do hospital e percebo que deixei todo o orgulho lá dentro. Vou para casa lamber as feridas (por favor não levar à letra).

4 comentários:

  1. Se o que fizeste foi uma artroscopia, então essa também podia ser a minha história, mais pormenor menos pormenor.
    Mas a mim calhou-me pessoal mais sádico.

    Ah, e a minha pila não mirrou assim tanto! Aliás, cheguei a andar todo convencido e com ela ao léu, na cadeira de rodas. Efeitos da anestesia.

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  2. Tem fé no segredo médico e reza para que ninguém não obrigado a ele tenha presenciado a dissecação do teu orgulho! ;)
    Boa recuperação! (se for caso, disso)

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  3. Muito humilhante. Indemnização impõe-se. Um bom advogado e tens o teu futuro garantido. :-)

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  4. Nuno, foi isso que me fizeram.

    Nikky, já estou recuperado, obrigado.

    Jaime, agora recuperado, planeio entrar por ali a dentro todo nu. Até os ateus se vão benzer...

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