2008-07-04

Declaração post mortem



Aos 16 anos, no Verão, convenci-me que não ia sobreviver até à estação seguinte.
Estava a trabalhar mais ou menos longe de casa e tinha acabado de tirar a carta de mota. Na minha primeira viagem de duas rodas para o trabalho, condutor maçarico que era, deparo-me com as piores condições climatéricas para se conduzir: chuva e vento fortes.
Como se isto não fosse suficientemente mau, tinha que atravessar a ponte 25 de Abril.
Sabem o que acontece a um maçarico que anda devagarinho na ponte 25 de Abril? Tem que andar encostadinho à faixa da direita.
Sabem o que acontece ao condutor de um veiculo de duas rodas que está a levar com umas rabanadas de vento valentes, tem que lidar com o piso molhado e ainda se tem de manter entre um rail e uma faixa de metal que é escorregadia como tudo? O condutor fica cagado de medo e depois de conseguir passar a ponte pensa "não há hipótese nenhuma de eu aguentar um verão inteiro a andar de mota sem cometer um erro que faça com que me estripe todo".

Desde esse dia já passaram 8 anos. Estou consciente de que a qualquer momento um camião pode fazer de mim papa, mas não tenho pensado no caso.

Um post recente de uma vizinha blogosférica, veio fazer com que reflectisse por alguns dias acerca da morte:
Quais são as coisas que gostaria de fazer antes que a minha morte ou a morte de outra pessoa as possam tornar impossíveis (sem contar com violações)?

Defecar do alto de uma árvore é sem duvida uma das coisas que não quero deixar de fazer. Usar um gato morto como capacete, é outra das actividades obrigatórias.

E o blog? Como fica o blog se um gajo estica o pernil? Há que dar uma satisfação aos clientes!

Vou hoje começar a fazer a minha declaração de morte e vou deixá-la agendada para o dia que faço anos.
Eu não confio muito nas tecnologias, estou sempre à espera que me entalem. Nesse post vou deixar informações particularmente sensíveis e algumas fotografias. Se o serviço de agendamento do Google me prega alguma rasteira...

Todos os aninhos vou actualizar a declaração e atrasá-la mais um ano.

Tenho quase a certeza que me vou arrepender por fazer isto...

6 comentários:

  1. Estava a considerar seriamente em comprar moto (Fazer 600 S2) porque tenho de vir da Margem Sul todos os dias, mas já me borrei só de ler isto. E ainda por cima a experiência em duas rodas é basicamente zero (dei umas voltinhas, apenas).
    Acho que vou meter o rabinho entre as pernas e ficar pelo carro...
    Obrigadinho, hã!!!

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  2. Já pensei algumas vezes nisso, no morrer e não escrever que morri (seria no mínimo interessante isso aocntecer).

    Acho que alguém haveria de deixar um comentário qq. De qq modo não serviria de nada. Eu não ia ler o que vocês iam dizer depois de eu morrer!

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  3. Por acaso já pensei nisso várias vezes.

    Essa ideia mórbida até faz sentido. Mas de uma ex-bloger aficcionada por motas para um copinho de leite vigor, larga a mota. É certo que aé o tecto nos pode cair em cima, mas, de vez em quando, temos que pensar nos que ficam.

    http://leitecondensadoascolheradas.blogspot.com/2006/10/geralmente-diz-se-que-s-damos-valor-s.html

    http://leitecondensadoascolheradas.blogspot.com/2006/10/saudades.html

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  4. Flávio, se calhar é melhor não. Comboio é muito bonito.

    Thunderlady, estás desafiada. Vamos lá a escrever essa cartinha.

    Alexandra, eu não vou morrer a andar de mota. A minha morte, estou certo, será bem mais estúpida e ridícula que isso.
    Se te serve de consolo, fica sabendo que NUNCA conduzo depois de beber e que estou a reduzir drasticamente o habito de dormir poucas horas antes de conduzir. É que eu tenho uma "queda" especial para adormecer enquanto conduzo e se calhar é melhor não abusar da sorte.

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